Sobre a mulher pária, não contei tudo no texto anterior: dei-lhe algum dinheiro e disse-lhe para me procurar em determinado sítio a certa hora de um dia. Não apareceu… Assim até me senti mais aliviado; afinal, mais valia que esta realidade não o fosse… Mas eis que, uma semana depois, à mesma hora e praticamente no mesmo sítio em que me encontrara antes, a senhora me sai ao caminho.
Não conseguira chegar à hora combinada… Mas já tinha dado um passo importante no seu desfortúnio: com a pequena dádiva obtivera documentos da sua identificação. Agora, já se sentindo alguém, iria procurar alguma ajuda que a retire do caminho da indigência… Sem saber como, prometi-lhe ajuda… Esta história vai aqui ser acompanhada em todo o seu esplendor…
21 de fevereiro de 2009
15 de fevereiro de 2009
Admirável mundo…
A jovem mulher dirigiu-se-me na rua sem que eu tivesse recebido um qualquer sinal de que tal iria acontecer. Fê-lo adornado com um pedido de desculpas e, antes de ir ao assunto – que diga-se, imaginei-o: pedinte seguramente!-, esforçou-se para obter a minha atenção, o que acedi sem grande convicção, enquanto obtinha um renovado e muito dócil pedido de desculpas.
Articulava as palavras com a clareza das frases elaboradas, diria que as decorou. O discurso escorria com a urgência do desespero. Avançava lentamente no tema, “estou a viver o que nunca imaginei possível; tanto eu como o meu marido ficámos desempregados e perdemos a nossa casa, tivemos que a entregar”. Nada de novo portanto: este parece ser um cenário que caracterizará o Vale do Ave nos próximos tempos… Mas esta mulher tinha mais…
Notava-se que a higiene não era a melhor, pelo contrário. Mas percebia-se no domínio dos gestos, na transmissão articulada do discurso que não lhe podia remeter para o campo dos dominados pelas drogas. Fiz-lhe imensas perguntas: já foi à Segurança Social? Já tentou a sua Junta de Freguesia? Já falou com a Câmara Municipal? Sim, já fizera tudo isto mas um problema terminal retirava-lha a existência.
Começara a passar as noites conjuntamente com o marido no único lugar disponível: a viatura que por enquanto sobrara à penúria. Quis contudo o destino, sempre trágico quando dele se precisa com outra vestimenta, viesse em forma de um incêndio e destruísse a viatura, afinal o que sobrava de roupagem de dignidade. Com o incêndio consumiram-se também os documentos.
Consequências? Pois bem, sabe, não sei o que fazer, disse-me a senhora! Só agora descobri que não é possível obtermos documentos se não tivermos… dinheiro e eu, disse-me, quando procuro as instituições e conto as minhas desventuras recebo em troca um ar de incredulidade como se eu estivesse a mentir. É nesse momento que fico a saber que obter novos documentos, dizem-me, não há forma de o fazer sem dinheiro. Estou irremediavelmente sem nada para dizer… Ou fazer?!
Como diria José Ortega Y Gasset, eu sou eu e minhas circunstâncias. Se não as salvo, não me salvo. Esta senhora já não é! Também não tem circunstância alguma… É um pária… Quantos serão daqui a um ano?
Articulava as palavras com a clareza das frases elaboradas, diria que as decorou. O discurso escorria com a urgência do desespero. Avançava lentamente no tema, “estou a viver o que nunca imaginei possível; tanto eu como o meu marido ficámos desempregados e perdemos a nossa casa, tivemos que a entregar”. Nada de novo portanto: este parece ser um cenário que caracterizará o Vale do Ave nos próximos tempos… Mas esta mulher tinha mais…
Notava-se que a higiene não era a melhor, pelo contrário. Mas percebia-se no domínio dos gestos, na transmissão articulada do discurso que não lhe podia remeter para o campo dos dominados pelas drogas. Fiz-lhe imensas perguntas: já foi à Segurança Social? Já tentou a sua Junta de Freguesia? Já falou com a Câmara Municipal? Sim, já fizera tudo isto mas um problema terminal retirava-lha a existência.
Começara a passar as noites conjuntamente com o marido no único lugar disponível: a viatura que por enquanto sobrara à penúria. Quis contudo o destino, sempre trágico quando dele se precisa com outra vestimenta, viesse em forma de um incêndio e destruísse a viatura, afinal o que sobrava de roupagem de dignidade. Com o incêndio consumiram-se também os documentos.
Consequências? Pois bem, sabe, não sei o que fazer, disse-me a senhora! Só agora descobri que não é possível obtermos documentos se não tivermos… dinheiro e eu, disse-me, quando procuro as instituições e conto as minhas desventuras recebo em troca um ar de incredulidade como se eu estivesse a mentir. É nesse momento que fico a saber que obter novos documentos, dizem-me, não há forma de o fazer sem dinheiro. Estou irremediavelmente sem nada para dizer… Ou fazer?!
Como diria José Ortega Y Gasset, eu sou eu e minhas circunstâncias. Se não as salvo, não me salvo. Esta senhora já não é! Também não tem circunstância alguma… É um pária… Quantos serão daqui a um ano?
3 de fevereiro de 2009
Goal average
Subscrever:
Mensagens (Atom)